| Resumo |
O Surubim-do-Doce (Steindachneridion doceanum) é uma espécie de peixe endêmica e criticamente ameaçada da Bacia do Rio Doce. A espécie apresentava ampla distribuição ao longo de toda a bacia do Rio Doce, porém devido à perda de habitat causada pelo assoreamento, pela construção de reservatórios e pela introdução de espécies exóticas, a sua distribuição e abundância estão drasticamente reduzidas. Atualmente, sua ocorrência é restrita a três pequenos trechos no estado de Minas Gerais: (i) rio Piranga, em Ponte Nova, (ii) rio Santo Antônio, em Ferros e (iii) rio Manhuaçu, em Aimorés. Essa espécie apresenta baixa densidade populacional, distribuição fragmentada e ocorre em locais com altas profundidades e com a presença de locas, o que dificulta sua detecção por métodos convencionais. Neste contexto, a técnica de DNA ambiental (eDNA) é uma metodologia utilizada para o monitoramento não invasivo de espécies aquáticas, permitindo a identificação de sua presença a partir de fragmentos genéticos liberados no ambiente. Neste trabalho, utilizamos a análise de eDNA para avaliar o limite de distribuição do Surubim-do-Doce no Rio Piranga. As coletas de água foram realizadas em nove pontos distribuídos ao longo do Rio Piranga e do Rio Doce, abrangendo trechos a montante, na área de ocorrência conhecida e a jusante. Também foram incluídas amostras controle (positivo e negativo) para assegurar a confiabilidade dos resultados. A detecção positiva concentrou-se nos pontos da área de ocorrência, especialmente no Ponto 5 (com 54 sequências) e no Ponto 6 (com 14 sequências). Nos demais pontos, a presença foi nula ou muito baixa, o que reforça a hipótese de que a distribuição atual da espécie é altamente restrita e associada a trechos específicos da bacia, possivelmente às ameaças sofridas pela espécie. Por fim, os dados obtidos demonstram que o eDNA foi uma ferramenta útil para detectar a presença do Surubim-do-Doce no rio Piranga, onde métodos tradicionais demandariam mais tempo, recurso e poderiam gerar prejuízo à saúde dos indivíduos coletados. As informações geradas neste estudo ajudam a delimitar áreas prioritárias para conservação e indicam a necessidade de ações voltadas à recuperação da qualidade dos habitats. |