| Resumo |
A participação de mulheres no futebol no Brasil é marcada por adversidades e lutas que, durante muito tempo, foram invisibilizadas pelas mídias. As conquistas nesse cenário aconteceram a partir de reivindicações e resistências contra-hegemônicas em prol da participação das mulheres no esporte, que seguem desafiando lógicas patriarcais. Apesar de alguns avanços notáveis na relação do futebol de mulheres com as mídias, ainda persistem problemas quanto à recepção do público futebolístico ao esporte de mulheres. Nesse sentido, o presente trabalho analisou a recepção de usuários do Instagram a conteúdos postados no perfil do Globo Esporte (ge.globo) sobre a Copa do Mundo de Futebol de Mulheres de 2023, por meio dos comentários de usuários do Instagram. Esses conteúdos, de domínio público, foram utilizados para dialogar com a produção científica sobre futebol de mulheres e as normatividades e rupturas do contexto do esporte. Assim, foram catalogados comentários de 73 publicações, num recorte temporal que se inicia dez dias antes do início da competição (20 de Julho) e findando quando o Brasil foi eliminado (2 de Agosto), a partir de duas classificações: 1) comentários de endosso; 2) e comentários de rejeição/contestação. Os resultados apontaram quatro categorias de análise: 1) Mulheres no meio futebolístico: entre o descrédito e a ridicularização, 2) Reduzindo a insignificância: ninguém liga, 3) A Marta e o futebol de mulheres e 4) O apoio em diferentes manifestações: o combate e a torcida. As categorias reportam-se à expressão pública de rejeição, através da descredibilização, desprezo e ataques motivados, em sua maior parte, pela misoginia, reforçando a lógica exclusivamente “masculina” enraizada neste esporte. Os resultados sugerem que ainda não se superou a gama de preconceitos e estereótipos que estão historicamente associados à presença das mulheres no futebol, e identificou-se a persistência de discursos preconceituosos e discriminatórios que perpetuam perspectivas de estereótipos de gênero no esporte. Assim, apesar de alguns avanços observáveis quanto à modalidade, a mídia televisiva segue deixando o futebol de mulheres à margem de seus interesses. Ainda que tenha realizado uma cobertura da Copa do Mundo de Mulheres maior que as anteriores, ainda há discrepâncias quanto à cobertura e iniciativas muito recentes de incluir comentaristas e narradores mulheres. Cabe refletirmos como a cultura historicamente machista e excludente deste esporte terá que percorrer um longo caminho para que haja de fato o reconhecimento, visibilidade e respeito à modalidade e às demais mulheres profissionais e amadoras que atuam no universo do futebol. É importante compreendermos que a mídia não está conectada diretamente apenas aos impactos dos estigmas sociais, mas que também é fruto deles mesmos e de sua cultura. |