| Resumo |
As preposições e locuções prepositivas, embora indiquem tipicamente relações espaciais (ex.: O livro está em cima da mesa), podem evocar sentidos abstratos tais como base/suporte (ex.: Qualquer cientista social de hoje pensa o Brasil em cima dos dados do IBGE), pressão emocional (ex.: Era uma senhora debaixo de uma enorme pressão, com o marido sendo sequestrado) e escala (ex.: Nas baixas latitudes tem-se o clima equatorial, com temperaturas elevadas, acima de 18° C). Os usos abstratos resultam de extensões metafóricas de esquemas cognitivos abstraídos de cenas físicas, em nossas interações com entidades concretas e na recorrência dessas experiências. Assim, os objetivos deste trabalho foram analisar os usos espaciais e metafóricos dos pares em cima de/ embaixo (debaixo de) e acima de/ abaixo de no português brasileiro (PB), explicar os processos que motivam as extensões de sentido a partir de usos espaciais e apresentar, ao final, suas redes de polissemia, isto é, uma visualização gráfica das relações de extensão semântica. As justificativas da pesquisa foram a importância de se demonstrar o papel da cognição humana na linguagem e a inexistência de explicações cognitivas para as relações de sentido entre usos espaciais e metafóricos das preposições, em dicionários e gramáticas descritivas do PB. A proposta teve como quadro teórico-metodológico a Semântica Cognitiva, especificamente os estudos sobre categorização e polissemia (Rosch, 1978; Rosch e Mervis, 1975; Teixeira, 1999; Silva, 2006), Redes de Polissemia (Langacker, 1987; Lakoff, 1987; Brugman, 1988 [1981]; Geeraerts, 1992; Oliveira, 2009; Oliveira e Good-God, 2017), Metáforas Conceituais e Orientacionais (Lakoff e Johnson, 2003 [1980]) e Metáforas Primárias (Grady, 1997). A pesquisa analisou amostras de uso do corpus CETENFolha, vinculado à plataforma Linguateca. A metodologia consistiu nas seguintes etapas: identificação do sentido das amostras, separação de usos metafóricos dos usos espaciais, exclusão de sentenças descontextualizadas e de sentenças em que a preposição aparecia em uma construção linguística cristalizadas (ex.: O rapaz deu em cima da moça), categorização dos exemplos metafóricos e seleção de um uso metafórico prototípico. Como resultados, com base em cenas primárias de verticalidade, foram identificadas as seguintes categorias para cada locução prepositiva: em cima de: base/suporte, pressão emocional, escala, limite temporal e cobertura; embaixo de: escala, ocultação e status inferior; debaixo de: pressão, cobertura, proteção, ocultação, diante de e status inferior; acima de: escala e status superior; abaixo de: ocultação, escala e status inferior. Além disso, contatou-se uma assimetria na distribuição dos usos das locuções prepositivas opostas investigadas. Por fim, apresentam-se as redes de polissemia de cada locução. |