| Resumo |
Santa Cruz do Escalvado, localizada no estado de Minas Gerais, configura-se como uma área de relevância epidemiológica para a ocorrência de doenças parasitárias, especialmente a leishmaniose, em função de características ambientais e ecológicas favoráveis à proliferação do vetor. Esse cenário pode ter sido agravado após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, no ano de 2015, evento que causou significativos impactos socioambientais em diversas localidades da região. Este estudo teve como objetivo detectar a presença de Leishmaniose Visceral Canina (LVC) em cães do município por meio de dois métodos sorológicos: a Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI) e o Ensaio Imunoenzimático (ELISA). Foram coletadas amostras de sangue de 21 cães domiciliados na região. O sangue foi fracionado, e o soro obtido foi armazenado para posterior análise. Na RIFI, o soro dos animais foi aplicado em lâminas previamente sensibilizadas com antígeno específico, seguido de incubação com anticorpo secundário conjugado a um marcador fluorescente, sendo posteriormente analisado em microscópio de fluorescência. No ensaio ELISA, micoplacas de 96 poços sensibilizadas com antígeno foram incubadas com o soro, seguido pela adição de anticorpo secundário conjugado à enzima peroxidase. Em seguida, foram adicionados o substrato TMB (tetrametilbenzidina) e o cromógeno, com leitura da reação em comprimento de onda de 450 nm em leitora de microplacas. Ambos os testes foram realizados utilizando kits comerciais fornecidos por Bio-Manguinhos (Fiocruz). Dos 21 cães analisados, 9 (42,86%) apresentaram sorologia reagente na RIFI, enquanto 3 (14,28%) foram positivos no ELISA. A discrepância entre os resultados pode ser atribuída à maior especificidade do ELISA, que reduz a ocorrência de reações cruzadas, enquanto a RIFI, embora sensível, apresenta maior probabilidade de falsos positivos, especialmente em áreas endêmicas para outras zoonoses. Os achados evidenciam a importância de Santa Cruz do Escalvado como área de risco para a LVC, particularmente no contexto dos impactos ambientais decorrentes do desastre de Mariana. Ressalta-se a necessidade de investigações epidemiológicas contínuas e estratégias de vigilância em saúde pública para avaliar o papel dos cães como reservatórios e o potencial de disseminação da leishmaniose visceral na região. |