| Resumo |
O dimorfismo sexual é um fenômeno comum na natureza e pode se manifestar em caracteres morfológicos, fisiológicos, funcionais ou comportamentais, por meio da diferenciação entre os sexos guiada pela seleção natural. O objetivo deste trabalho foi investigar o efeito da domesticação sobre o dimorfismo sexual da forma e do tamanho das asas de Drosophila sturtevanti. Foram comparadas duas amostras: uma coletada diretamente no campo (G0) e outra correspondente à décima geração (F10) de uma linhagem isofêmea (L22), derivada de uma única fêmea coletada em G0 e mantida em condições laboratoriais. Machos e fêmeas de cada amostra tiveram suas asas direitas removidas para análise de morfometria geométrica. O processo incluiu a marcação de marcos anatômicos no software tpsDig, seguida da análise no pacote geomorph, no R (versão 4.5.1), para comparação entre os sexos em forma e tamanho.Testamos a hipótese de que a seleção sexual seria relaxada no laboratório, especialmente porque os machos não competiriam mais pelo acesso às fêmeas. Com isso, esperava-se que o dimorfismo sexual em forma e tamanho fosse reduzido nessas novas condições. Os resultados mostraram que o dimorfismo de tamanho foi, de fato, menor em F10 do que em G0. Em G0, fêmeas foram significativamente maiores que machos (diferença = 0,519; p < 0,0001), enquanto em F10 essa diferença foi menor, embora ainda significativa (diferença = 0,254; p < 0,001). Essa redução resultou de uma diminuição mais acentuada no tamanho das fêmeas (diferença G0–F10 = 0,395; p < 0,0001), enquanto os machos não diferiram significativamente entre as gerações (p = 0,097). Em contraste, o dimorfismo de forma foi significativamente maior em F10 do que em G0, mesmo após o controle pelo efeito do tamanho (alometria). O dimorfismo sexual de forma, corrigido pela alometria, foi significativo em ambas as gerações (p < 0,01), mas com maior intensidade em F10 (R² = 0,174) do que em G0 (R² = 0,129), sugerindo aumento real do dimorfismo de forma, contrariando a hipótese inicial. As mudanças de forma entre G0 e F10 foram significativas em ambos os sexos, com fêmeas apresentando variação ligeiramente maior. Embora a magnitude das alterações tenha sido semelhante, elas ocorreram em direções distintas, ampliando o dimorfismo. Concluímos que dez gerações em laboratório reduziram o dimorfismo de tamanho, mas acentuaram o de forma, sugerindo que a domesticação pode ter efeitos complexos e não lineares sobre machos e fêmeas, afetando forma e tamanho de maneira independente. Estudos com múltiplas linhagens serão essenciais para avaliar a generalidade desses padrões. |