| Resumo |
INTRODUÇÃO: Acidentes elapídicos são provocados a partir da inoculação da peçonha por serpentes do gênero Micrurus, as corais verdadeiras. O envenenamento é caracterizado por um quadro clínico neurológico, na forma de síndrome miastênica aguda, com risco de evolução para insuficiência respiratória e óbito. Pela relevância dos acidentes ofídicos no Brasil e as particularidades do acidente elapídico, é essencial a compreensão clínica e epidemiológica para a prática assistencial. OBJETIVO: Descrever o perfil epidemiológico dos acidentes elapídicos no Brasil. METODOLOGIA: Estudo descritivo, ecológico, transversal, retrospectivo, com dados secundários obtidos pelo DataSUS, abrangendo o Brasil de 2010 a 2024. RESULTADOS: No período analisado, registraram-se 4279 casos de acidentes elapídicos no país. Destes, 3.032 casos (70,89%) envolveram homens. A faixa etária mais acometida foi entre 20 e 59 anos (n=2865; 66,95%); de 0 a 9 anos, 9,14%, de 10 a 19, 14,0%, e em idosos, 9,89%. Geograficamente, a região Nordeste apareceu em primeiro lugar nas ocorrências (n=2374; 55,5%), seguida da Sudeste (n=854; 19,96%), Norte (n=483; 11,29%), Centro-Oeste (n=290; 6,77%) e Sul (n=278; 6,5%); Bahia e Pernambuco apareceram como estados de maior ocorrência, com 12,53% e 10,66% dos casos, respectivamente, seguidos por Minas Gerais e São Paulo, 9,35% e 8,74%. Temporalmente, os acidentes ocorreram principalmente nos meses quentes e chuvosos: média de 410,34 casos (DP=39,25) de dezembro a maio, com um pico em março de 483 acidentes, e média de 302,84 casos (DP=16,70) nos outros 6 meses. Observou-se, também, um crescimento ao longo dos anos: de 210 casos em 2010 a 400 em 2024. Outro achado relevante foi que o maior número de acidentes não está relacionado ao trabalho (67,33%), com incidência relativa crescente; em 16,92% houve relação e em 15,74% não há informação. O intervalo entre o acidente e o atendimento foi de menos de uma hora em 36,5% do total, entre 1 e 3 horas em 30,22% dos casos, e mais de 3 horas em 24,94%, não havendo informações para o restante; ressalta-se que 250 pacientes foram atendidos apenas 12 horas após o acidente. Em relação ao tratamento, 60,03% receberam soroterapia (n=2568) enquanto em 32,94% (n=1409) não houve prescrição desta; em 302 casos não há informação. Poucos são os óbitos dos acidentes reportados (n=6; 0,14%); a grande maioria evoluiu para cura (n= 3607; 84,31%) e em 15,57% das notificações não há informação sobre a evolução. CONCLUSÃO: Os acidentes elapídicos no Brasil ocorrem majoritariamente em homens, com certo padrão de sazonalidade nos meses quentes e chuvosos e maior concentração no Nordeste. Observa-se crescimento ao longo dos anos e aumento dos casos sem vínculo ocupacional. A soroterapia foi amplamente empregada, com predomínio de desfechos clínicos favoráveis e baixa taxa de letalidade. Esses dados reforçam a importância do fortalecimento da vigilância, identificação precoce dos casos e acesso oportuno ao tratamento. |