| Resumo |
Introdução: A obesidade é uma doença grave, recidivante e epidêmica, que impacta os âmbitos físico, mental e social das pessoas que possuem este agravo. Apresenta caráter multifatorial e está cercada de tabus sociais. Nesse cenário, o cuidado em saúde torna-se essencial. No Brasil, cerca de 85% das demandas da população devem ser atendidas na Atenção Primária à Saúde (APS), incluindo a obesidade. Assim, os profissionais da APS possuem papel fundamental no cuidado às pessoas com essa condição. Objetivo: compreender, sob a ótica de profissionais da APS, suas concepções sobre o cuidado às pessoas em situação de obesidade. Metodologia: Foram realizadas 44 entrevistas semiestruturadas com 11 médicos, 12 enfermeiros, 11 técnicos de enfermagem e 10 agentes comunitários de saúde, entre fevereiro e junho de 2023. A análise dos dados foi baseada na fenomenologia social de Alfred Schutz, com apoio do software IRaMuTeQ. O estudo teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CAAE: 62312122.4.0000.5153/ Parecer n. 5.645.090 ). Resultados: Os profissionais entrevistados consideraram que o cuidado demandado por essas pessoas envolve acolhimento, atendimentos individuais, orientações, vínculos afetivos, encaminhamentos e solicitação de exames. Esforçam-se para prestar assistência humanizada, mas enfrentam desafios como a dificuldade em abordar o tema com os usuários e a baixa motivação destes frente ao tratamento. Outro entrave apontado foi a falta de uma rede de saúde organizada, capaz de subsidiar um cuidado qualificado. Também foram mencionadas a ausência de capacitações, a sobrecarga nas equipes e a fragilização da longitudinalidade do cuidado. Os depoimentos revelaram ainda a influência do estigma do peso nas percepções e ações dos profissionais. À luz de Schutz, nota-se que muitos deles não se encontram em uma situação biográfica que favoreça a atuação técnica esperada, recorrendo ao senso comum para orientar suas práticas. Há baixa reciprocidade de perspectivas entre profissionais e usuários. Conclusão: O presente estudo permitiu a compreensão do cuidado às pessoas em situação de obesidade na perspectiva de profissionais de saúde da APS, o qual é permeado de desafios que ainda inviabilizam uma atenção à saúde centrada nas necessidades das pessoas com obesidade. Como possibilidades de qualificar este cuidado sugere-se sua valorização nos processos formativos e fortalecimento da rede de atenção à saúde voltada para a pessoa com obesidade, tendo a APS como coordenadora do cuidado. |