| Resumo |
O quorum sensing (QS) é um mecanismo de comunicação bacteriana que permite a coordenação de comportamentos coletivos dependentes da densidade populacional, por meio da síntese, transporte e detecção de moléculas sinalizadoras denominadas autoindutores (AIs). Quatro classes de AIs são conhecidas: autoindutor-1 (AI-1), autoindutor-2 (AI-2), autoindutor-3 (AI-3) e os peptídeos autoindutores (AIPs). O AI-1, também chamado de N-acil-homoserina lactona (AHL), é típico de bactérias Gram-negativas e atua por meio das proteínas LuxI e LuxR, ou suas homólogas, responsáveis pela síntese e detecção dessas moléculas, respectivamente. O QS mediado por AI-1 confere às bactérias um papel estratégico na percepção de sinais próprios e interespécies, levando à regulação da expressão de genes, como aqueles relacionados à formação de biofilmes, motilidade, produção de pigmentos e enzimas, entre outros que conferem certas vantagens. Assim, o presente trabalho objetivou investigar a produção de AHLs por bactérias lipolíticas isoladas do efluente do “Laticínio Escola – Produtos Viçosa”, vinculada à Fundação Arthur Bernardes (FUNARBE), em Viçosa, MG, Brasil. Foram analisados 11 isolados Gram-negativos (de LIP1 a LIP11), além dos controles positivo e negativo para a síntese de AHL (Enterobacter cloacae 067 e Enterobacter cloacae 067T, respectivamente). Como biossensores, foram utilizadas as bactérias Chromobacterium subtsugae CV026, anteriormente classificada como Chromobacterium violaceum CV026, e Escherichia coli pSB403, capazes de detectar AHLs regulando a produção de violaceína e bioluminescência, respectivamente. Todas as bactérias foram ativadas e reativadas em caldo Luria Bertani (LB) por 24 h a 37 °C, exceto C. subtsugae CV026, incubada a 30 °C. Posteriormente, foi realizado o plaqueamento de um isolado e de uma bactéria biossensora em estrias paralelas em ágar LB semissólido com 0,75% (m/v) de ágar, para favorecer a difusão das AHLs. As placas foram incubadas a 30 °C para C. subtsugae CV026 e a 37 °C para E. coli pSB403. Após 24 h, nenhum dos isolados testados induziu a produção de violaceína por C. subtsugae CV026, mas LIP6 e LIP8 induziram a bioluminescência de E. coli pSB403, sugerindo produção de AHLs. Entretanto, não se pode afirmar que os demais isolados não produzem AHLs, uma vez que a concentração dessas moléculas pode estar abaixo do limite de detecção dos biossensores utilizados, ou pode haver variação estrutural nas AHLs produzidas que não é reconhecida pelo QS do biossensor. Esses achados reforçam o papel estratégico do QS em isolados ambientais e destacam a importância de aprofundar sua caracterização. Como perspectivas, recomenda-se a ampliação da triagem com outros biossensores, além da caracterização estrutural das AHLs por técnicas como cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas (LC-MS). Também se sugerem estudos funcionais para avaliar o impacto do QS em fenótipos relevantes, como a atividade lipolítica e a formação de biofilmes. |