| Resumo |
A poluição atmosférica antropogênica impacta a região metropolitana de São Paulo (RMSP), majoritariamente devido aos elevados níveis de ozônio (O3) e material particulado. A vegetação dos remanescentes florestais da RMSP pode ser utilizada como bioindicadora da poluição atmosférica. O nível de tolerância ou sensibilidade das espécies depende da arquitetura e organização dos tecidos foliares e fatores como sazonalidade climática. O presente trabalho objetivou caracterizar biomarcadores morfoanatômicos de estresse promovidos pela poluição atmosférica em quatro espécies nativas, Alchornea sidifolia Müll.Arg., Casearia sylvestris Sw., Guarea macrophylla Vahl e Machaerium nyctitans (Vell.) Benth., em duas áreas na RMSP durante o período chuvoso, USP (maior nível de poluição atmosférica) e RMG (área de referência). Além disso, investigou-se os caracteres anatômicos relacionados à tolerância ou sensibilidade nessas espécies. Fragmentos de folhas completamente expandidas, sem sintomas visuais foram coletados e fixados em formalina neutra tamponada. Parte das amostras foi incluída em historesina e seccionada em micrótomo rotativo para avaliação em microscopia de luz. As lâminas foram coradas com Azul de toluidina para análise estrutural, Sudan black para lipídeos totais e Cloreto férrico para compostos fenólicos. Outra parte das amostras foi submetida à dissociação epidérmica para avaliação dos tricomas e estômatos. Todas as espécies apresentam epiderme uniestratificada, mesofilo dorsiventral e folha hipoestomática. A. sidifolia e C. sylvestris possuem mesofilo compacto e espaço intercelular reduzido, sendo comum a presença de ductos e cavidades em C. sylvestris. G. macrophylla e M. nyctitans apresentam numerosos espaços intercelulares, com presença de idioblastos mucilaginosos em M. nyctitans. Indivíduos coletados em USP apresentaram acúmulo de compostos fenólicos, colapso das células epidérmicas, colapso e retração do protoplasto, hipertrofia das células do parênquima clorofiliano, idioblasto mucilaginoso mais volumoso e núcleo colapsado. Os indivíduos coletados em RMG apresentaram danos em menor intensidade, limitados à retração do protoplasto e colapso de células epidérmicas. A. sidifolia e C. sylvestris foram mais tolerantes devido ao acúmulo de compostos fenólicos, espessura acentuada da cutícula e presença de tricomas lignificados em A. sidifolia. G. macrophylla e M. nyctitans foram mais suscetíveis devido ao maior espaço celular entre as células do mesofilo, e cutícula mais delgada, como observado em M. nyctitans. Em conclusão, mesmo durante o período chuvoso a poluição atmosférica promove danos e alterações anatômicas em plantas na RMSP. Os danos foram mais intensos em plantas coletadas em USP em comparação à RMG. Além disso, a organização das estruturas anatômicas, como arranjo do mesofilo, espessura da cutícula e acúmulo de metabólitos secundários contribuem na tolerância ou sensibilidade à poluição atmosférica em espécies vegetais na RMSP. |