| Resumo |
A Educação Física (EF) escolar, em seu caráter crítico, busca transcender as técnicas das práticas corporais, promovendo a reflexão das manifestações culturais do movimento e suas implicações sociais. Contudo, a aplicação dessa abordagem tem sido um desafio na história da EF escolar, frequentemente apresentando desconexão entre o conteúdo proposto e a realidade dos estudantes. Essa lacuna é ainda maior quando o foco recai sobre práticas corporais elitizadas, como alguns esportes de marca, que comumente reforçam o acesso desigual e o conceito de meritocracia. Nesse contexto, o presente resumo tem como objetivo analisar a recepção e o engajamento de alunos do ensino médio em aulas de EF que abordaram criticamente os esportes de marca. Investigou-se como temas como meritocracia, privilégio e acesso, ressoam na percepção dos alunos e quais reações e resistências surgem diante da desconstrução de ideias naturalizadas na prática esportiva. Para isso, foram realizadas intervenções em aulas durante o PIBID, em uma escola de Viçosa-MG. Aplicou-se uma sequência de aulas que exploraram os esportes de marca não apenas por suas regras e técnicas, mas a partir de uma abordagem crítica. A metodologia consistiu na proposição de situações-problema, debates guiados e atividades práticas que questionavam concepções pré-existentes sobre sucesso e participação no esporte. O registro das experiências se deu a partir da observação das interações em sala, discussões e engajamento ou desinteresse dos alunos. Os resultados revelaram um fenômeno paradoxal: à medida que se aprofundavam os debates sobre meritocracia, privilégio e acesso ao esporte, surgiam denúncias dos alunos sobre a segregação e o elitismo destas práticas. Inicialmente pensados como ferramentas de análise crítica, esses temas revelaram barreiras socioeconômicas e culturais que moldam a relação dos estudantes com o esporte, gerando reações de desinteresse e resistência. A não participação e aparente apatia não são meras faltas de vontade, mas uma reação complexa a um cotidiano social que os confronta com as desigualdades presentes na cultura esportiva. Percebeu-se que, ao explorar os esportes de marcas com essa abordagem, a resistência à participação aumentava, evidenciando comoo esporte e a noção sobre o mesmo se naturalizam entre os jovens, exacerbando limitações sociais que geram desmotivação. Conclui-se que o desinteresse e resistência dos alunos não refletem apenas a complexidade dos temas, mas uma consequência histórico-social internalizada em suas experiências. A aplicação de aulas críticas, embora fundamental para uma EF transformadora, esbarra em realidades que tornam o conteúdo inacessível ou desinteressante quando este sublinha barreiras sociais. Os achados sublinham a necessidade de repensar estratégias pedagógicas para que a abordagem não apenas denuncie, mas também aponte caminhos para a superação e apropriação do esporte por todos. |