| Resumo |
Este trabalho trata-se de um recorte da dissertação de mestrado intitulada “Aqui tem intelectual preta sim:? trajetórias e vivências de docentes pretas em programas de pós-graduação nas áreas ciências exatas e da terra em Minas Gerais, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Viçosa–MG. A investigação teve como objetivo analisar as trajetórias e vivências acadêmicas e profissionais de mulheres pretas docentes nessas áreas. Metodologicamente, utilizou-se da abordagem de pesquisa quantiqualitativa. Na primeira etapa, realizou-se coleta de dados quantitativos na base de dados eletrônicos do Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa Educacional Anísio Teixeiras-INEP sobre o número de programas nas áreas de Ciências Exatas e da Terra em Minas Gerais. No total, foram localizadas 11 instituições, bem como 8 programas de pós-graduação nas seguintes áreas: Matemática, Física, Química, Oceanografia, Ciências da Computação, Geociência, Estatística e Astronomia, fornecendo uma visão geral do universo acadêmico. Na segunda etapa da pesquisa, utilizou-se da heteroidentificação racial, que se consistiu na análise de 650 fotografias anexadas aos currículos lattes das docentes, credenciadas nos programas de pós-graduação das áreas elencadas. Essa análise incluiu traços fenotípicos: cabelos, traços faciais, contornos dos lábios e cor da pele. Após a identificação, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 4 docentes da área de Química. As entrevistas permitiram captar dados objetivos, mas também as percepções e narrativas pessoais das participantes. A integração dos dados qualitativos e quantitativos permitiu identificar padrões e tendências, além das nuances nas experiências das docentes, contribuindo para uma análise mais aprofundada sobre como raça, gênero e classe atravessam as suas trajetórias acadêmicas e profissionais. A pesquisa mostrou ainda que há sub-representação de mulheres negras docentes nas Ciências Exatas e da Terra. Há pontos convergentes dentre as 4 entrevistadas, já que todas atuam na área de Química. A área da Química é pragmática, por isso não oferece abertura para o trabalho com raça e gênero enquanto teorias sociais, mas constataram-se os esforços por parte das docentes em colocarem o assunto nas discussões nos cursos de bacharelados e licenciaturas, e nos trabalhos de pesquisa, ensino e extensão. Assim, os relatos sobre a resiliência e as intelectualidades negras ganharam escopo em boa parte das entrevistas, evidenciando que, embora sejam poucas nas áreas das ciências ditas “duras”, tais mulheres agenciam saberes, multiplicam representatividades pretas de modo consciente de suas ações perante a sociedade e em seus respectivos campos de atuações científicas. |