| Resumo |
A pesquisa científica com cannabis no Brasil tem se consolidado como um campo emergente, atravessado por intensas disputas políticas, simbólicas e econômicas. Este trabalho, ancorado na Sociologia do Conhecimento e nos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, busca compreender como se configuram as articulações entre instituições públicas e agentes privados na viabilização de pesquisas com a planta. Por meio do acompanhamento das experiências desenvolvidas na Universidade Federal de Viçosa, o trabalho toma como objeto os casos que envolvem o uso científico da cannabis e, especialmente, as formas de parceria público-privada que possibilitam sua realização. As fontes de dados incluem entrevistas com pesquisadores envolvidos nos projetos, documentos institucionais e materiais produzidos por empresas e associações parceiras, além de dados secundários como notícias, relatórios de mercado (projeções e especulações sobre investimentos no setor) e documentos de órgãos reguladores, como a Anvisa, que contextualizam o cenário da cannabis medicinal e seus desafios. A metodologia combina entrevistas semiestruturadas com pesquisadores de cannabis e a análise de experiências em curso e em consolidação, voltadas à identificação de semelhanças e à compreensão das articulações público-privadas, dos modos de agenciamento, dos entraves institucionais e das estratégias de legitimação dessas pesquisas. A análise parte da concepção de que a ciência é uma prática situada, moldada por relações de poder e por disputas em torno da autoridade epistêmica. O avanço da cannabis como objeto de pesquisa ocorre em meio a mudanças legislativas recentes e ao reposicionamento da planta entre o estigma e o reconhecimento científico, configurando um cenário de transição paradigmática. Os casos analisados evidenciam a complexidade das relações entre universidade, mercado e sociedade civil, revelando tanto a potência quanto as tensões dessas articulações, que envolvem financiamento, infraestrutura, legitimidade institucional e demandas sociais por acesso ao conhecimento. A formação de agentes privados no interior das instituições públicas de pesquisa tem gerado reconfigurações nas práticas científicas, redirecionando prioridades, exigindo novos arranjos regulatórios e impondo desafios à autonomia dos pesquisadores. Tais experiências revelam que a consolidação desse campo não ocorre de forma linear, sendo atravessada por dilemas éticos, disputas por reconhecimento e desigualdades no acesso aos recursos e à circulação do saber. Ao mapear essas dinâmicas, a pesquisa contribui para refletir sobre os sentidos atribuídos à ciência, os limites, as potencialidades e dificuldades da cooperação entre esferas público-privadas e a necessidade de modelos mais democráticos e estáveis de produção de conhecimento, especialmente em contextos marcados por controvérsias e incertezas regulatórias. |