| Resumo |
Este trabalho investiga como as desigualdades estruturais de raça, gênero e classe se manifestam na produção do espaço urbano, a partir das experiências de mulheres negras moradoras do bairro Nova Viçosa, em Viçosa (MG). A interseccionalidade é adotada como ferramenta analítica central para compreender as múltiplas violações do direito à cidade enfrentadas por essas mulheres. Embora a interseccionalidade seja amplamente aprofundada nas Ciências Sociais, seu uso para analisar desigualdades urbanas ainda é incipiente. No caso do bairro Nova Viçosa, amplamente estudado em diversas áreas do conhecimento, identifica-se uma lacuna importante: não há pesquisas que enfoquem especificamente a experiência das mulheres negras residentes. A pesquisa segue uma abordagem qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica, levantamento documental e pesquisa de campo dividido em duas etapas: (1) visitas exploratórias com observação não sistemática e não participante no bairro; e (2) entrevistas semiestruturadas com 10 mulheres negras, selecionadas por amostragem em bola de neve, sendo três entrevistas aprofundadas. Utilizou-se também a técnica de foto-elicitação (photo-elicitation) como recurso complementar. Os resultados revelam que a condição de mulheres negras e periféricas impacta diretamente suas vidas cotidianas, evidenciando desafios como dificuldades de acesso ao emprego formal, sobrecarga no trabalho reprodutivo, precariedade na mobilidade urbana e deslocamentos marcados por várias formas de violência — desde a escassez de serviços públicos até a insegurança no espaço urbano. As narrativas demonstram como essas vivências são atravessadas por limitações estruturais, estigmatização e múltiplas formas de opressão que aprofundam as desigualdades urbanas. A interseccionalidade mostrou-se essencial para analisar a articulação entre raça, gênero e classe na reprodução dessas desigualdades. Valorizar os saberes situados dessas mulheres e denunciar a invisibilização dos corpos e territórios periféricos nas políticas públicas são contribuições centrais do estudo, alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 5 — “Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”. No âmbito urbano, o estudo contribui para a visibilização das desigualdades no acesso a serviços e oportunidades; ressalta a urgência da participação ativa das mulheres negras nos processos decisórios sobre o território; denuncia as formas de violência de gênero nos deslocamentos; e reforça a importância do reconhecimento e valorização do trabalho de cuidado não remunerado, que recai desproporcionalmente sobre essas mulheres. Assim, reafirma-se a necessidade de incorporar a perspectiva interseccional na formulação de políticas públicas, rompendo com modelos universalizantes que invisibilizam múltiplas opressões. Somente ao reconhecer essas experiências como centrais será possível construir cidades mais justas e comprometidas com a equidade. |