| Resumo |
O trabalho consiste em compreender e analisar os discursos sobre higiene mental, tratamento e cuidado com a saúde mental no Brasil durante as primeiras cinco décadas do século XX, a partir da perspectiva da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), fundada em 1923, no Rio de Janeiro. A Liga configurou-se a partir do discurso de “regeneração social” propondo alternativas de cuidado da saúde mental, atuando nos mais diversos cenários e utilizando dos conhecimentos da psicologia na concretização das suas ações. A LBHM foi fundada com a ajuda de filantropos, tendo como objetivo inicial o de melhorar a assistência aos doentes mentais através da renovação dos quadros profissionais e estabelecimentos psiquiátricos. A Liga foi uma entidade civil reconhecida, de utilidade pública, que funcionava como uma subfunção federal, que apoiava suas propostas na noção de eugenia, visando a prevenção e a educação dos indivíduos. Foi apenas a partir de 1926, no entanto, que os psiquiatras começaram a elaborar projetos que ultrapassam as aspirações iniciais da instituição e que visavam a prevenção, a eugenia e a educação dos indivíduos. Dessa maneira, afirma-se que a Liga apoiava suas propostas na noção de eugenia, sendo uma mudança natural dos processos teóricos da eugenia imposta aos programas de higiene mental. Desse modo, a instituição tinha como foco a busca pela melhoria exclusiva da assistência psiquiátrica aos doentes “nervosos e mentais”, com indicação preventiva e eugênica, cujo raio de ação amplo pretende atingir diversos níveis sociais. Em síntese, a Liga pretendia oferecer serviços à população efetivando, assim, uma intervenção prática dos princípios que professavam, tendo como foco campanhas educativas e de propagandas por meio de cursos e conferências, reproduzidas muitas vezes na imprensa diária e também na rádio. O trabalho consiste em pesquisa empírica nas teses sobre a Liga e as fontes primárias produzidas pela instituição para compreendermos a sua influência no processo de construção da nação tão trabalhada nas primeiras décadas do século XX, buscando entender como um movimento de higiene mental adentrou em tantos aspectos e contextos da sociedade, sendo um veículo de interação entre saúde e o Estado. Pensando nessa relação entre a construção da Liga e o fomento do discurso de controle social, alimentado pelo discurso ideológico de se autodeclararem como especialistas do “perfeito modo de pensar”. Assim, buscando analisar a organização das políticas de controle em diferentes espaços sociais e, ainda, para o debate mais geral sobre história das doenças e das políticas públicas em saúde no Brasil do século XX. |